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UBS eleva projeção do minério de ferro para US$ 93/t  

O UBS elevou sua projeção para o minério de ferro de US$ 85/t para US$ 93/t, apesar da pressão do projeto Simandou na Guiné, destacando restrições de oferta e demanda crescente.

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Banco eleva para US$ 93/t sua premissa de longo prazo e argumenta que queda dos teores, esgotamento de minas e custos mais altos limitarão o efeito da nova oferta da Guiné

A entrada de Simandou no mercado mundial de minério de ferro começou a transformar uma ameaça projetada durante anos em tonelagem real. O primeiro carregamento do projeto guineense deixou o país em dezembro de 2025. Quando estiver plenamente desenvolvido, o complexo formado pelas operações da SimFer e da Winning Consortium Simandou poderá exportar até 120 milhões de toneladas por ano — volume suficiente para alterar o equilíbrio do mercado transoceânico.

O efeito inicial é baixista. O aumento da oferta coincide com uma contração da produção siderúrgica chinesa e com embarques ainda elevados dos fornecedores tradicionais. Mas um novo relatório do UBS, publicado em 29 de setembro, argumenta que essa fotografia de curto prazo esconde uma mudança estrutural: depois do ramp-up de Simandou, o mercado pode ser mais apertado do que sugerem as projeções baseadas apenas em toneladas de minério.

O banco elevou de US$ 85 para US$ 93 por tonelada sua premissa de longo prazo para minério de 61% Fe entregue à China, em dólares reais de 2026, a partir de 2035. O número está cerca de 12% acima do consenso de aproximadamente US$ 83/t utilizado pelo UBS. Não se trata, portanto, de uma aposta em recuperação imediata. Nas próprias projeções do banco, o preço de referência permanece pressionado durante a expansão de Simandou: US$ 101/t em 2026, US$ 95/t em 2027 e US$ 92/t em 2028, antes de subir para US$ 97/t em 2029 e US$ 101/t em 2030.

O problema não é apenas quantas toneladas chegam ao mercado

O ponto mais interessante da tese do UBS está no lado da oferta. O banco sustenta que contar toneladas de minério sem considerar quanto ferro elas efetivamente contêm pode superestimar o crescimento da oferta disponível para as siderúrgicas.

O conceito é simples. Uma tonelada de minério com teor mais baixo entrega menos unidades de ferro. Para fornecer a mesma quantidade de Fe ao sistema siderúrgico, é preciso extrair, transportar e processar mais minério. A consequência econômica aparece em volumes maiores, custos logísticos adicionais e, dependendo da qualidade e das impurezas, descontos maiores na venda.

Esse processo já aparece nos produtos das grandes mineradoras. A Rio Tinto modificou a especificação do Pilbara Blend em 2025, reduzindo seu teor médio de ferro de 61,6% para 60,8%. A empresa atribuiu a mudança à combinação do Pilbara Blend tradicional com volumes anteriormente vendidos como SP10.

Na BHP, o Newman High Grade Fines teve nova redução de especificação em 2026: o teor típico caiu de 61,2% para 60,7% Fe para cargas a partir de agosto, segundo informação da empresa reportada pela S&P Global. A Fortescue, por sua vez, decidiu retirar gradualmente o West Pilbara Fines e introduzir a partir do FY2027 um novo produto de aproximadamente 55% Fe.

Ao incorporar essas mudanças mina a mina, o UBS calcula que a deterioração dos teores exige mais de 50 milhões de toneladas adicionais de minério em 2026 em comparação com projeções anteriores para entregar quantidade equivalente de ferro contido. É daí que vem uma das frases centrais do relatório: Simandou importa, mas as “unidades de ferro” importam mais.

Essa distinção muda a interpretação dos 120 Mt/ano previstos para a Guiné. O UBS contrapõe essa nova capacidade a aproximadamente 800 milhões de toneladas de produção que precisarão ser substituídas no setor até 2035 devido ao esgotamento de minas. Segundo a análise reproduzida pelo banco, parcela relevante dessa reposição ainda não está comprometida em projetos aprovados.

Simandou, portanto, não desaparece como risco para o mercado. A questão é outra: quanto de sua produção será acréscimo líquido de oferta e quanto acabará substituindo minas exauridas, operações marginais ou produtos de qualidade inferior.

A curva de custos também subiu

O segundo argumento do UBS é econômico. O banco estima que o 90º percentil de sua curva de custos de minério, ajustada por qualidade e valor de uso e colocada em base CFR China de 61% Fe, esteja próximo de US$ 92/t. No 95º percentil, o custo chega a aproximadamente US$ 106/t.

Esses números não devem ser confundidos com o custo caixa C1 divulgado pelas mineradoras. A curva do banco procura comparar produtores em uma base equivalente, incorporando frete e diferenças de qualidade. Seu significado é que, à medida que o preço se aproxima dessa parte superior da curva, uma quantidade crescente de material marginal deixa de gerar caixa.

Há sinais concretos desse mecanismo. Em 29 de setembro, a CSN Mineração reduziu sua projeção de produção própria e compras de terceiros para 2026 de 45–47 milhões para 39–41 milhões de toneladas. A companhia atribuiu a decisão às condições mais difíceis de mercado e ao aumento do frete e anunciou redução temporária da produção de minério de menor qualidade no Complexo Pires, em Minas Gerais.

É exatamente esse tipo de resposta que dá suporte à tese da curva de custos: preços suficientemente baixos não afetam apenas a rentabilidade; começam a retirar determinadas toneladas do mercado.

China cai, mas a demanda por minério não acompanha a mesma trajetória

O lado da demanda permanece mais controverso.

A produção chinesa de aço bruto caiu 3,7% em agosto sobre um ano antes, para 74,6 milhões de toneladas. No acumulado dos oito primeiros meses de 2026, o recuo foi de 3,1%. A contração confirma a perda de força de setores associados à construção e ao mercado imobiliário.

Mas os dados de minério mostram uma dinâmica menos linear. As importações totais da China chegaram a 845,3 milhões de toneladas entre janeiro e agosto, aumento de 5,5% em relação ao mesmo período de 2025. Ou seja, menor produção de aço não se traduziu até agora em queda equivalente das compras externas de minério.

Para o UBS, parte da explicação está na mudança de composição da economia chinesa. O banco estima que, em 2026, a demanda de aço fora da construção superou pela primeira vez a demanda vinculada à construção. Máquinas, automóveis, eletrodomésticos, energia, infraestrutura, construção naval e exportações de bens manufaturados estariam amortecendo parte da retração imobiliária.

A segunda parte da tese é geográfica. O UBS projeta crescimento do consumo de aço em um grupo de economias que chama de “Sul Global”, incluindo Índia, Sudeste Asiático, Oriente Médio, Brasil, México e outros mercados emergentes. Em seu modelo, a produção mundial de aço bruto passaria de aproximadamente 1,8 bilhão de toneladas em 2025 para pouco mais de 2 bilhões em 2035, apesar da redução chinesa.

Os dados correntes oferecem algum suporte à ideia de deslocamento do crescimento, embora ainda não provem a projeção de longo prazo. Nos primeiros oito meses de 2026, a produção de aço da Índia cresceu 6%, enquanto a do Vietnã aumentou 29,1%. São avanços relevantes, mas partindo de bases muito menores do que a chinesa.

Esse é também um dos principais riscos da tese do UBS. Para que esses mercados compensem de forma duradoura a redução da intensidade de aço da China, será necessária uma expansão prolongada de infraestrutura, indústria e capacidade siderúrgica. O crescimento populacional, por si só, não garante essa demanda.

Simandou continua sendo o risco de curto prazo

Nada disso elimina o impacto imediato da Guiné.

A SimFer, sociedade responsável pelos blocos 3 e 4 de Simandou, foi projetada para atingir 60 Mt/ano. A outra metade da capacidade pertence ao desenvolvimento dos blocos 1 e 2 pela WCS. A Rio Tinto prevê aproximadamente 30 meses de ramp-up da mina da SimFer depois da conclusão do comissionamento da infraestrutura compartilhada.

O avanço já começa a aparecer nos fluxos marítimos. O UBS estimou recentemente que os embarques de Simandou haviam alcançado ritmo anualizado próximo de 39 milhões de toneladas em setembro. Ao mesmo tempo, o banco calcula que cerca de 140 milhões de toneladas da oferta mundial estariam operando com fluxo de caixa negativo aos preços correntes em sua curva ajustada por valor de uso.

É uma combinação que explica a cautela até 2028: minério novo de alta qualidade entrando no mercado enquanto produtores marginais ainda não reduziram oferta em escala suficiente.

Para o trimestre de setembro, o UBS estima embarques do Pilbara de aproximadamente 86 Mt pela Rio Tinto, 75 Mt pela BHP e 48 Mt pela Fortescue. Para a Vale, a projeção do banco é de produção próxima de 89 Mt. São estimativas anteriores à divulgação dos respectivos resultados, e não volumes efetivamente reportados pelas empresas.

No caso brasileiro, a Vale mantém para 2026 guidance oficial de produção de minério entre 335 milhões e 345 milhões de toneladas.

O mercado depois de Simandou

A tese do UBS não é que Simandou deixará de pressionar o minério de ferro. É que seu impacto tende a ser concentrado no período de ramp-up e precisa ser comparado com forças menos visíveis: redução dos teores, exaustão de minas, investimentos de reposição, aumento da intensidade de capital e uma curva de custos mais elevada.

Essa leitura também ajuda a explicar por que a discussão sobre minério não pode mais ser reduzida ao volume produzido na China ou às toneladas nominais colocadas no mercado pelas grandes mineradoras.

Qualidade passou a ser parte da equação de oferta. Uma tonelada de 55% Fe não substitui economicamente, em todas as condições, uma tonelada de 62% ou 65%. Da mesma forma, 120 milhões de toneladas de uma nova mina não representam necessariamente 120 milhões de toneladas líquidas adicionais quando ativos maduros perdem teor ou chegam ao fim da vida útil.

Simandou continuará ampliando a oferta e poderá manter o minério sob pressão durante os próximos anos. Mas o teste decisivo para a tese baixista virá depois do ramp-up: saber se a indústria conseguirá substituir centenas de milhões de toneladas de capacidade madura, preservar teor e controlar custos enquanto a demanda siderúrgica migra gradualmente da construção chinesa para outros setores e regiões.

É nessa transição — e não numa alta imediata — que está a aposta de US$ 93/t do UBS.

Principais fontes: UBS Global Research,

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