Invest Mining Summit 2026
BNDES e BID Invest detalham financiamento a minerais críticos
Executivos apontam crédito, equity, garantias e capital multilateral como caminhos para levar projetos minerais ao fechamento financeiro
O BNDES dispõe de linhas que, somadas, podem chegar a cerca de R$ 1,3 bilhão em crédito incentivado por empresa para projetos ligados a minerais críticos, segundo o diretor José Gordon. Durante o Invest Mining Summit 2026, realizado em 20 de outubro, em São Paulo, Gordon e Juan Paródi, diretor do BID Invest para o Cone Sul, apontaram garantias, infraestrutura, licenciamento e estruturação financeira entre os principais desafios para levar novos projetos ao fechamento financeiro.
Gordon afirmou que o Brasil ganhou espaço na agenda internacional de minerais críticos diante da busca de diferentes países por alternativas à concentração das cadeias produtivas na China. Ao mesmo tempo, defendeu que o avanço brasileiro ocorra de forma gradual, começando pela pesquisa, lavra e beneficiamento.
“A gente precisa começar pelo começo”, afirmou. Segundo ele, o desenvolvimento de uma cadeia capaz de chegar a produtos de maior valor agregado depende primeiro do conhecimento dos depósitos minerais e da ampliação da capacidade de processamento no país.
Financiamento de minerais críticos combina crédito, equity e garantias
Entre os instrumentos apresentados, Gordon destacou linhas de crédito voltadas à inovação, ao programa Brasil Soberano e ao Fundo Clima. Segundo o diretor, uma empresa pode ter acesso a aproximadamente R$ 1,3 bilhão em recursos incentivados considerando esses mecanismos.
O banco também mantém uma linha de financiamento em dólar e instrumentos de participação acionária por meio da BNDESPar.
Outra frente é um fundo de investimento criado pelo BNDES em parceria com a Vale para apoiar empresas em estágios iniciais de pesquisa mineral. BNDES e Vale aportaram conjuntamente R$ 500 milhões como capital inicial, enquanto a expectativa apresentada no painel é que o fundo alcance aproximadamente R$ 2 bilhões com recursos captados no mercado.
Gordon afirmou ainda que um edital promovido pelo banco recebeu quase R$ 50 bilhões em propostas de projetos. Segundo ele, o processo permitiu ao BNDES avaliar as demandas e dificuldades específicas das empresas do setor.
Um dos desafios, de acordo com o executivo, é desenvolver estruturas financeiras adequadas a projetos greenfield e junior companies, que muitas vezes ainda não possuem fluxo de caixa consolidado ou garantias suficientes para operações tradicionais de crédito.
BNDES desenvolve soluções de project finance
O BNDES também criou um grupo interno para desenvolver soluções de project finance adaptadas às características dos projetos minerais, que normalmente exigem grandes volumes de capital e longos períodos de implantação.
Essas estruturas precisam considerar riscos relacionados a preços, contratos de venda e desenvolvimento operacional.
Outro ponto destacado por Gordon foi a disponibilidade de garantias. Segundo o diretor, o Fundo Garantidor previsto para o setor está em fase de estruturação, em trabalho conjunto com a Casa Civil.
Para o executivo, as garantias estão entre os principais gargalos financeiros enfrentados pelos novos projetos minerais.
BID Invest aponta cinco desafios até o fechamento financeiro
Juan Paródi afirmou que o desafio não está apenas na existência das reservas minerais, mas na transformação desses ativos em projetos capazes de receber financiamento.
Segundo o diretor do BID Invest, o Brasil já possui recursos minerais relevantes em segmentos como lítio, cobre, níquel e terras raras. O trabalho consiste em conduzir esses ativos pelas diferentes etapas necessárias até o financial closing.
Paródi destacou cinco fatores que pesam nesse processo: risco geológico e tecnológico, previsibilidade do licenciamento, infraestrutura necessária ao empreendimento, estrutura comercial dos projetos e capacidade financeira dos patrocinadores.
No licenciamento, o executivo ressaltou que a previsibilidade é determinante para financiamentos de longo prazo.
“As empresas não se importam com a quantidade de etapas ou com o processo, desde que ele seja claro. Elas querem previsibilidade”, afirmou.
A infraestrutura também pode definir a viabilidade financeira. Rodovias, portos, fornecimento de energia e outras estruturas necessárias para colocar uma operação mineral em funcionamento precisam ser consideradas junto com o próprio ativo.
“Sem isso a gente não tem projeto financiado”, disse Paródi ao tratar da chamada enabling infrastructure.
Questões socioambientais podem atrasar projetos
O BID Invest também inclui critérios ambientais e sociais em sua análise de financiamentos.
Segundo Paródi, essa dimensão está entre as áreas em que a instituição observa maior número de atrasos em projetos complexos. A avaliação abrange temas como comunidades, uso da água e biodiversidade, além da capacidade das empresas de acompanhar esses riscos durante a implantação.
O executivo defendeu ainda que os benefícios econômicos associados à mineração sejam percebidos pelas regiões onde os empreendimentos estão instalados.
“Não se trata só de comunicar que a mineração é importante. O mais importante é que as pessoas e as comunidades sintam os benefícios e vejam na prática quais são os benefícios de conviver com a mineração”, afirmou.
BID busca mobilizar outros financiadores
Paródi explicou que o papel do BID Invest inclui estruturar operações de forma que outros bancos e investidores possam participar dos financiamentos.
Entre os instrumentos citados estão operações em reais ou em dólares, garantias, mercado de capitais e mecanismos de blended finance. Os projetos podem contar com prazos de 10 a 15 anos, dependendo da estrutura e das necessidades financeiras.
O BID Invest também realiza diligências relacionadas a integridade, reputação, riscos ambientais e sociais e capacidade técnica. Segundo Paródi, essa avaliação funciona como uma referência para outras instituições financeiras interessadas em participar das operações.
“O nosso trabalho é muito mais esse trabalho de formiga, de fazer a diligência muito bem feita e ter certeza de que tudo está em ordem”, afirmou.
Brasil busca ampliar agregação de valor
Gordon afirmou que o Brasil está aberto a investimentos de diferentes países, incluindo Austrália, Japão, Estados Unidos e membros da União Europeia, desde que parte da agregação de valor seja realizada no território brasileiro.
“O BNDES não espera ser o único financiador de tudo”, disse. A estratégia, segundo ele, envolve parcerias com o BID e outras instituições financeiras.
Paródi também avaliou que minerais críticos representam uma oportunidade que ultrapassa a extração mineral, podendo estimular tecnologias, cadeias industriais e novos investimentos no país.
Na avaliação dos executivos, a consolidação dessa cadeia dependerá de investimentos de longo prazo e da combinação de capital público, privado e multilateral. Gordon ressaltou que o BNDES não pretende ser o único financiador dos projetos, enquanto Paródi destacou o papel das instituições de desenvolvimento na mobilização de outros investidores.
Fonte: Invest Mining Summit 2026

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