Invest Mining Summit 2026

Vale vê espaço para dobrar produção mineral no Brasil

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Rafael Bittar aponta demanda crescente, potencial geológico e maior previsibilidade no licenciamento como fatores decisivos para transformar depósitos em novos projetos

O Brasil poderia ao menos dobrar sua capacidade de produção mineral se conseguir avançar no desenvolvimento de projetos e depósitos já identificados, segundo Rafael Bittar, vice-presidente executivo técnico da Vale. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira (20), durante o Invest Mining Summit 2026, em São Paulo.

Segundo Bittar, estudo da Accenture encomendado pela Vale avaliou caminhos para destravar a mineração brasileira e indicou potencial para uma expansão significativa da produção. Para o executivo, a oportunidade combina disponibilidade de recursos minerais, crescimento da demanda global e necessidade de maior previsibilidade para investimentos de longo prazo.

“Nunca se falou tanto em mineração como se tem falado nos últimos anos”, afirmou.

Demanda global amplia oportunidade para mineração brasileira

Bittar afirmou que descarbonização, transição energética, inteligência artificial e expansão de data centers estão criando uma demanda estrutural por minerais.

Esse movimento, segundo ele, não se limita aos minerais classificados como críticos. Minério de ferro, cobre, níquel, ouro e outras commodities também permanecem relevantes para a economia e para as cadeias globais.

O contexto geopolítico reforçou essa mudança. Com países buscando maior segurança nas cadeias de suprimento, a mineração passou a exercer uma função que vai além do mercado de commodities.

Para Bittar, a atividade deixou de ser apenas uma fornecedora de matérias-primas para se tornar também um “instrumento geopolítico”.

O executivo destacou ainda que o minério de ferro deverá continuar como uma das âncoras da produção mineral brasileira, enquanto o cobre apresenta espaço relevante de expansão.

Na província mineral de Carajás, no Pará, a Vale possui projetos de grande porte nas duas commodities. A companhia também anunciou a ambição de dobrar sua produção de cobre até 2035.

Diferentes projetos exigem estratégias distintas

Apesar do potencial de crescimento, Bittar ressaltou que a mineração não deve ser tratada como uma atividade uniforme.

Projetos de terras raras e lítio podem operar em escalas menores, enquanto grandes minas de cobre e minério de ferro demandam volumes significativamente maiores de capital, equipamentos, energia e infraestrutura logística.

“Muitas vezes o remédio para um determinado tipo de projeto é diferente do que para o outro”, afirmou.

Segundo Bittar, essa diferença também influencia o impacto econômico dos empreendimentos. Grandes projetos de cobre, minério de ferro e ouro podem alterar mais rapidamente a escala da produção mineral, enquanto minerais críticos podem gerar contribuição adicional à economia quando suas cadeias avançam para etapas como separação, refino, fabricação de ímãs e produção de baterias.

Licenciamento precisa ganhar previsibilidade

Entre os principais obstáculos para transformar recursos minerais em produção, Bittar destacou o licenciamento.

Segundo ele, o problema não está na existência das etapas regulatórias, mas na dificuldade de prever prazos e exigências ao longo dos processos.

“Não é bypassar etapas de licenciamento, não é deixar de fazer o que tem que ser feito, mas fazer com mais previsibilidade”, afirmou.

A previsibilidade é especialmente importante porque projetos minerais exigem grandes volumes de capital e podem levar muitos anos entre a exploração inicial e o início da operação.

O executivo também citou o papel do conselho previsto na governança dos minerais críticos. Para Bittar, o órgão precisa ser reconhecido como um instrumento capaz de fomentar o desenvolvimento da indústria e evitar o aumento da percepção de risco para investidores.

Ele observou que mecanismos de maior participação estatal sobre minerais considerados estratégicos também vêm sendo adotados por países como Austrália, Canadá e Estados Unidos.

Além do ambiente regulatório, Bittar citou conhecimento geológico, infraestrutura, energia e logística entre os fatores necessários para colocar novos projetos em operação.

Concentrado deve preceder verticalização da cadeia

Ao abordar o avanço do Brasil para etapas de maior valor agregado, Bittar defendeu uma estratégia construída gradualmente a partir da produção mineral.

“Só vai ter midstream e downstream no dia em que tiver concentrado”, afirmou.

Segundo o executivo, investimentos em refino, processamento e outras etapas posteriores da cadeia dependem primeiro da existência de concentrados produzidos em quantidade, qualidade e regularidade suficientes.

As terras raras ilustram esse desafio. Bittar afirmou que o Brasil deve buscar o desenvolvimento de uma cadeia de processamento, mas alertou contra expectativas de reproduzir rapidamente a estrutura construída pela China.

“O que está na China foi construído em 20 anos”, disse.

Para ele, a cadeia chinesa reúne processamento, fornecedores de equipamentos, insumos químicos e integração entre diferentes plantas. O Brasil deve ter ambição de desenvolver essas competências, mas considerando o tempo necessário para consolidar uma estrutura semelhante.

No cobre, Bittar avaliou que o concentrado já apresenta elevado valor e que a prioridade pode estar na abertura de novas minas diante da demanda estrutural.

No minério de ferro, apontou o HBI como uma oportunidade de verticalização, favorecida pela qualidade do minério brasileiro e pela disponibilidade de fontes renováveis de energia.

Vale incorpora IA e automação a novos projetos

A transformação tecnológica também integra a estratégia apresentada pelo executivo.

Segundo Bittar, a Vale já opera mais de 90 equipamentos autônomos e utiliza inteligência artificial em diferentes etapas da cadeia mineral, incluindo exploração geológica, manutenção de equipamentos e otimização de operações.

A companhia também trabalha na digitalização de décadas de informações geológicas para ampliar o uso de inteligência artificial na identificação de novos corpos minerais.

Para Bittar, novos empreendimentos precisam incorporar essas tecnologias desde sua concepção.

“Não dá para eu pensar um projeto daqui a cinco anos sem que seja totalmente IA by design, autônomo by design”, afirmou.

Além da produtividade, a automação é apresentada pela companhia como ferramenta para reduzir a exposição de trabalhadores às áreas operacionais.

Bittar cita Flona de Carajás como exemplo de conservação

Ao defender uma mineração com menor impacto ambiental e maior aproximação com a sociedade, Rafael Bittar apontou a Floresta Nacional de Carajás como um dos exemplos da estratégia da Vale para conciliar produção mineral e conservação.

Segundo o executivo, a atividade minerária ocupa cerca de 3% dos aproximadamente 800 mil hectares de floresta protegida na Flona de Carajás. Bittar usou o dado para sustentar a avaliação de que a operação mineral legal pode coexistir com a preservação de extensas áreas de vegetação nativa.

“A mineração legal protege o meio ambiente”, afirmou.

A abordagem faz parte da visão de “mineração do futuro” apresentada pela Vale, que combina redução da área de intervenção, automação, inteligência artificial, reaproveitamento de materiais e diminuição da geração de rejeitos e emissões.

A companhia possui mais de 90 equipamentos autônomos em operação no país e mais de 45 soluções de inteligência artificial aplicadas à cadeia mineral. Em 2025, segundo os dados apresentados por Bittar, 26,3 milhões de toneladas de minério de ferro, equivalentes a cerca de 8% da produção, tiveram origem em fontes circulares, incluindo rejeitos e estéril reprocessados.

Para o executivo, esses avanços também estão relacionados ao desafio de melhorar a percepção da mineração pela sociedade. “A sociedade tem que querer a mineração. Não basta a gente falar que é essencial”, afirmou, ao defender maior transparência e proximidade com as comunidades.

Para Bittar, o potencial geológico brasileiro já está disponível. Transformá-lo em produção dependerá da capacidade de combinar investimento, licenciamento previsível, conhecimento geológico, infraestrutura, tecnologia e aceitação social.

“O potencial está aí, não há dúvida dele”, concluiu.

Fonte: Invest Mining Summit 2026

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