Minerais Críticos Agenda 2030
Tecnologia e mercado desafiam cadeia de minerais críticos


Painel da AMC mostra como plantas piloto, contratos de off-take, pesquisa aplicada e conexão com clientes podem levar projetos minerais à escala industrial
Transformar recursos minerais em uma cadeia industrial competitiva exige mais do que jazidas, incentivos e projetos de mineração. A passagem da pesquisa para a escala comercial depende de tecnologia comprovada, mercado, financiamento e capacidade de integrar diferentes elos da cadeia. Essa foi a principal discussão do painel “Tecnologia e Industrialização”, realizado durante o Minerais Críticos Agenda 2030, promovido pela Associação de Minerais Críticos (AMC), em 30 de setembro, em São Paulo.
Moderado por Bruno Vartuli, da Hatch, o debate reuniu Klaus Petersen, da Viridis Mining & Minerals, Fernando Contadini, da Nanum Nanotecnologia, e Gustavo Roque, da RCK Global. Na abertura, Vartuli resumiu o desafio com uma frase: “o subsídio ganha tempo, quem ganha jogo é a competitividade”.
A partir dessa perspectiva, os participantes discutiram diferentes caminhos para converter conhecimento geológico, projetos minerais e pesquisa aplicada em produtos que tenham clientes, escala e condições de competir internacionalmente.
Planta piloto reduz incerteza da Viridis
Klaus Petersen apresentou a experiência da Viridis com sua planta piloto em Poços de Caldas, em Minas Gerais. Segundo o executivo, a instalação, descrita por ele como uma das maiores fora da China, demonstrou a capacidade do projeto de produzir carbonato de terras raras.
A planta teve papel que foi além da validação técnica. Petersen afirmou que os resultados ajudaram nas análises de due diligence realizadas por instituições financeiras e também contribuíram para o avanço do contrato de venda futura da produção, o off-take, considerado parte importante da estruturação financeira do projeto.
“Ela trouxe mais soluções que dificuldades”, afirmou.
Segundo Petersen, a demonstração operacional permitiu mostrar ao mercado que o produto poderia ser obtido no Brasil de forma consistente. A Viridis trabalha com a perspectiva de iniciar sua produção em escala industrial em 2028.
O exemplo evidencia uma das principais dificuldades enfrentadas por projetos minerais em desenvolvimento. Mesmo quando há recurso geológico e uma rota de processamento definida, bancos, investidores e compradores precisam avaliar se a tecnologia funciona de forma repetível e se haverá mercado para o produto.
Nesse contexto, uma planta piloto pode servir como ponte entre um projeto ainda em desenvolvimento e a etapa de implantação industrial.
Viridis prevê US$ 50 milhões em separação de lantânio
A discussão avançou para uma etapa posterior da cadeia. Petersen afirmou que o contrato de off-take levou a Viridis a incorporar ao projeto uma unidade de extração por solvente estimada em cerca de US$ 50 milhões.
A estrutura será instalada em Poços de Caldas e permitirá separar lantânio, um dos elementos presentes no conjunto de terras raras produzido pelo empreendimento.
De acordo com Petersen, a companhia passou também a estudar a possibilidade de fornecer o elemento ao mercado brasileiro.
O executivo estimou que o consumo nacional de lantânio esteja próximo de 1.000 toneladas, enquanto a produção projetada pela Viridis poderia chegar perto de 3.000 toneladas. Os valores representam estimativas apresentadas pela empresa durante o painel.
“Conseguimos juntar a parte política, econômica e uma solução”, disse Petersen.
O caso foi usado para mostrar que agregação de valor não precisa significar a construção imediata de toda uma cadeia produtiva pela mesma companhia. O avanço pode ocorrer em etapas, desde que exista racionalidade econômica e demanda para o produto.
Nanum mostra como pesquisa chega ao mercado
Fernando Contadini apresentou uma trajetória diferente. A Nanum Nanotecnologia nasceu da aquisição de uma startup formada a partir de estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais e acumula 18 anos de desenvolvimento de materiais avançados.
Segundo o executivo, a empresa começou com conhecimento técnico para produzir óxidos metálicos nanométricos, mas descobriu rapidamente que dominar uma tecnologia não significava ter um produto comercial.
Depois de construir uma planta piloto, a companhia desenvolveu mais de 60 tipos de nanopartículas enquanto buscava aplicações capazes de encontrar demanda industrial.
Uma ferrita magnética funcionalizada para dispersão em água acabou se tornando um dos primeiros produtos relevantes da empresa. O desenvolvimento chegou à HP, que identificou potencial no material e solicitou ajustes nas características do produto.
Depois de atender às especificações, a Nanum firmou um contrato de off-take. Segundo Contadini, esse acordo permitiu financiar a primeira planta industrial da companhia, que começou a produzir o material há cerca de 16 anos.
“A boa ideia é um princípio muito pequeno do processo”, afirmou.
A experiência mostrou, segundo o executivo, que desenvolver uma tecnologia é apenas uma parte do trabalho. O produto precisa resolver um problema, cumprir requisitos industriais, manter qualidade entre diferentes lotes e encontrar um cliente disposto a incorporá-lo à sua operação.
Terras raras vão da geologia aos motores
Contadini também chamou atenção para a extensão da cadeia de terras raras.
Segundo ele, o processo começa na geologia, passa por mineração, beneficiamento, separação, metalização e fabricação de ímãs e termina em aplicações como motores e geradores.
A chegada de veículos chineses ao mercado brasileiro foi usada como exemplo de como esses materiais podem entrar no país já incorporados a produtos industrializados.
“Estamos vendo os carros chineses chegarem com tudo no mercado brasileiro. É a forma que os chineses estão trazendo a terra rara aqui para o Brasil”, afirmou.
Na avaliação do executivo, a competitividade futura estará não apenas no controle das jazidas, mas no domínio de conhecimento técnico ao longo desses diferentes processos.
A Nanum participa atualmente de iniciativas de pesquisa relacionadas à separação de terras raras e busca aplicações para elementos menos destacados nas discussões sobre ímãs, como o cério.
Contadini relatou, por exemplo, testes realizados pela própria companhia com um nanocatalisador de combustão à base de cério adicionado ao diesel. Em dois testes com uma pá carregadeira de uma mineradora, a empresa informou resultados de 14% e 14,8% de economia. Os números representam testes específicos relatados pela Nanum e não um desempenho generalizável para outras operações.
POC precisa avançar para “prova de valor”
Gustavo Roque, da RCK Global, concentrou parte de sua participação no processo de inovação utilizado por mineradoras e empresas de tecnologia.
Para ele, muitas provas de conceito, ou POCs, deixaram de funcionar como uma ponte eficiente entre inovação e escala comercial.
Roque descreveu dois problemas. De um lado, startups podem passar sucessivamente por provas de conceito sem conseguir transformar a solução em um negócio escalável. Do outro, companhias estabelecidas podem criar POCs apenas como uma forma de demonstrar que começaram a trabalhar com inovação, mesmo quando o problema escolhido não está entre suas principais prioridades.
A proposta apresentada foi evoluir para uma lógica de “prova de valor”, com maior compromisso entre as partes e remuneração da empresa que está desenvolvendo a solução.
“Acho uma crueldade você trazer a startup e não remunerar”, afirmou.
Roque citou experiências internacionais em que projetos tecnológicos são contratados como serviços e o aprendizado produzido tem valor mesmo quando a hipótese inicial não é confirmada.
Mineração pode criar novos ecossistemas
A RCK Global também trouxe ao painel uma visão mais ampla sobre agregação de valor.
Roque afirmou ter visitado 17 operações em dez países da América do Norte e da Europa para estudar como diferentes regiões transformaram a mineração em ponto de partida para novas atividades.
Entre os casos relatados, citou uma mina no Canadá cuja infraestrutura subterrânea também é utilizada para pesquisas científicas relacionadas à matéria escura. Na Europa, apresentou o exemplo de uma área ligada à mineração utilizada para testes de veículos autônomos da BMW.
Os casos foram apresentados para mostrar que o valor criado por um empreendimento mineral não precisa se limitar ao processamento do minério. Infraestrutura, universidades, centros de pesquisa, fornecedores e empresas de tecnologia podem formar um ecossistema ao redor da atividade.
Roque relacionou essa visão ao projeto de um Corredor de Minerais Críticos conectando Poços de Caldas, Araxá e o Vale do Jequitinhonha.
A proposta é aproximar projetos minerais de centros de pesquisa e universidades localizados em diferentes regiões de Minas Gerais e estimular conexões com fornecedores, startups e empresas de tecnologia.
Invest Poços busca mapear oportunidades regionais
A relação entre mineração e desenvolvimento regional também apareceu na experiência da Invest Poços.
Petersen explicou que a iniciativa apoiada pela Viridis busca mapear oportunidades econômicas na região de Poços de Caldas associadas à implantação de novos empreendimentos.
Segundo ele, a estrutura funciona de maneira independente e procura identificar características e lacunas da economia regional para ajudar empresas, administração pública e outros interessados a compreender os impactos e oportunidades relacionados a novos investimentos.
O executivo relacionou esse trabalho também às exigências do mercado financeiro. Segundo Petersen, uma parcela relevante das equipes envolvidas na due diligence dos financiadores analisa temas relacionados a comunidades, sustentabilidade e meio ambiente.
Isso amplia o conceito de competitividade de um projeto mineral. Além de recurso, tecnologia, custo e escala, as empresas precisam demonstrar condições de relacionamento com comunidades e capacidade de responder aos critérios socioambientais de investidores e financiadores.
Industrialização precisa encontrar um cliente
No encerramento do debate, Contadini retomou uma das principais mensagens do painel: projetos industriais precisam considerar a demanda desde o início.
Para ele, produzir determinado material simplesmente porque existe recurso mineral disponível pode resultar em capacidade industrial sem mercado.
“Você tem que partir do cliente e resolver um problema e evoluir na cadeia”, afirmou.
O executivo também disse não acreditar em um modelo de soberania no qual todos os componentes de uma cadeia precisem ser produzidos no Brasil. A prioridade, em sua avaliação, deve ser identificar pontos vulneráveis capazes de interromper a produção caso o acesso externo seja restringido.
O painel mostrou diferentes caminhos para enfrentar esse desafio. A Viridis apresentou como uma planta piloto e um contrato de off-take podem reduzir incertezas e permitir novos investimentos. A Nanum mostrou como pesquisa só se transforma em indústria quando encontra aplicação, especificação e cliente. A RCK Global defendeu uma inovação mais conectada a resultados e a formação de ecossistemas em torno dos empreendimentos minerais.
A mensagem final convergiu com a frase usada na abertura: incentivos podem ajudar projetos a ganhar tempo, mas a consolidação de uma cadeia brasileira de minerais críticos dependerá da competitividade de suas empresas, tecnologias e produtos.
Fonte: Associação de Minerais Críticos (AMC)


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