Minerais Críticos Agenda 2030
Alumínio deixa lições para estratégia brasileira de minerais críticos


Otávio Carvalheira usa perda de competitividade da cadeia brasileira de alumínio para defender segurança jurídica, tecnologia, capital, sustentabilidade e integração global na agenda de minerais críticos
A experiência brasileira com o alumínio pode servir de referência para a construção de uma estratégia de longo prazo para minerais críticos e estratégicos. Essa foi a principal mensagem apresentada por Otávio Carvalheira, conselheiro e senior advisor em mineração, metais e minerais críticos, durante a palestra magna “O Brasil e a Nova Economia”, no Minerais Críticos Agenda 2030, promovido pela Associação de Minerais Críticos (AMC), em 30 de setembro, em São Paulo.
Carvalheira recorreu à trajetória da indústria do alumínio para mostrar que reservas minerais, fábricas e mão de obra qualificada não garantem, por si só, competitividade. Segundo ele, o Brasil chegou a produzir entre 1,6 milhão e 1,7 milhão de toneladas de alumínio primário em 2008, mas viu essa produção cair para menos da metade nos anos seguintes.
“A bauxita estava lá. As fábricas estavam todas lá. Mão de obra disponível. Técnicos de primeira linha que nós exportamos para outras partes do mundo, mas nós perdemos a capacidade de competição”, afirmou.
Na avaliação do executivo, a energia foi um fator central nesse processo. Carvalheira relatou ter participado do fechamento de uma fábrica em Poços de Caldas e lembrou que o país passou de exportador relevante de alumínio primário para importador, situação que exigiu negociações com o governo para garantir cotas de importação e manter abastecida a indústria de semimanufaturados.
Para Carvalheira, esse histórico oferece uma advertência direta para a atual agenda de minerais críticos: desenvolver apenas a etapa mineral não significa construir uma cadeia industrial competitiva.
“Terras raras sozinhas não formam ímã”, resumiu.
Política mineral precisa estar conectada à política industrial
Ao analisar a agenda brasileira de minerais críticos, Carvalheira defendeu que a política voltada ao setor esteja articulada à estratégia industrial do país. Para ele, financiamento, garantias e celeridade regulatória podem criar condições para novos investimentos, mas a implementação será determinante para converter potencial geológico em produção, tecnologia e desenvolvimento industrial.
O palestrante ponderou que o Brasil não conseguirá desenvolver todas as etapas de todas as cadeias produtivas. A verticalização, segundo ele, precisa ser tratada com visão de longo prazo, prioridades claras e avaliação das vantagens competitivas de cada segmento.
Nesse contexto, Carvalheira apontou cinco pilares: papel do Estado, tecnologia e indústria, capital, sustentabilidade e conexão global.
O primeiro envolve segurança jurídica, previsibilidade e capacidade de execução. Investidores, afirmou, precisam conhecer prazos, critérios e etapas aplicados aos projetos.
“Celeridade não significa queimar etapas, nem baixar o nível de exigência socioambiental para os projetos acontecerem. Celeridade significa ter um processo claro, com tempos e prazos determinados, para que o empresário, o capital, consiga se planejar”, afirmou.
Carvalheira disse já ter acompanhado casos em que uma licença prévia levou dez anos, situação que classificou como impraticável para o planejamento empresarial.
Tecnologia, pessoas e capital
O segundo pilar apresentado foi tecnologia e indústria. Carvalheira afirmou que o Brasil possui exemplos de excelência em mineração e metais e já desenvolveu competências relacionadas a terras raras, mas perdeu parte desse conhecimento ao longo do tempo.
Na avaliação dele, universidades, empresas e instituições públicas precisam atuar de forma coordenada para recuperar capacidades tecnológicas e formar profissionais para uma indústria que tende a exigir conhecimentos cada vez mais especializados.
O terceiro pilar foi o financiamento. Carvalheira observou que grande parte das junior companies presentes no mercado brasileiro captou recursos em bolsas estrangeiras. Para ele, isso mostra que projetos brasileiros conseguem acessar capital internacional, mas também revela limitações do mercado doméstico para financiar empresas minerais em estágio de exploração e desenvolvimento.
“Listar aqui, atrair o capital dos brasileiros para que tenhamos mais sócios e não apenas stakeholders”, afirmou.
Na visão apresentada, mecanismos públicos de garantia e financiamento podem ajudar essas companhias a atravessar o chamado “vale do risco”, fase em que os projetos ainda precisam demonstrar viabilidade técnica, econômica e financeira antes da produção.
Sustentabilidade vai além das compensações
O quarto pilar foi sustentabilidade. Carvalheira relacionou o tema à experiência acumulada em operações na Amazônia e afirmou que a mineração responsável precisa produzir benefícios perceptíveis para as comunidades localizadas no entorno dos projetos.
Segundo ele, o compromisso de uma empresa com uma região não deve se limitar ao pagamento de royalties ou compensações previstas em lei.
“Não basta só deixar o royalty ou deixar apenas as compensações, precisa ser um bom vizinho”, disse.
Integração global deve reduzir dependências
O quinto pilar foi a conexão internacional.
Carvalheira rejeitou a ideia de que o Brasil precise produzir internamente todas as etapas das cadeias de minerais críticos. Segundo ele, nenhuma estratégia realista deve partir do pressuposto de autossuficiência completa.
O país, afirmou, já participa de cadeias internacionais e precisa aprofundar relações com diferentes mercados e parceiros. O objetivo deve ser reduzir concentrações excessivas de fornecimento sem substituir uma dependência por isolamento econômico.
“Não dá para ficar com 95%, 97% de dependência de nenhum país”, afirmou.
Alumínio funciona como alerta para minerais críticos
Ao voltar ao paralelo histórico, Carvalheira lembrou que a cadeia brasileira do alumínio levou décadas para se estruturar de forma integrada, reunindo mineração, transformação, indústria e reciclagem.
A perda de competitividade ocorrida posteriormente mostrou que nenhuma posição industrial é permanente. Mesmo com reservas minerais, ativos instalados e profissionais qualificados, o Brasil perdeu mais da metade da produção de alumínio primário quando as condições econômicas deixaram de ser competitivas.
Para o executivo, o mesmo risco precisa ser considerado agora na corrida global por minerais críticos. Recursos no subsolo representam uma vantagem inicial, mas não asseguram industrialização, atração de capital ou participação nas etapas de maior valor agregado.
A frase “terras raras sozinhas não formam ímã” sintetiza essa visão: o desenvolvimento de uma cadeia depende de mineração, processamento, tecnologia, energia, infraestrutura, financiamento, pessoas, mercado e integração internacional.
Implementação passa a ser o principal desafio
No encerramento da palestra, Carvalheira concentrou sua mensagem na execução. Segundo ele, a prioridade agora é implementar a política com segurança e previsibilidade, estruturar parcerias público-privadas e privadas, desenvolver profissionais e gerar resultados para o país e para os investidores.
O executivo destacou que muitas empresas ainda estão nas etapas iniciais de seus projetos e precisarão de persistência, disciplina e acompanhamento sistemático para avançar da pesquisa mineral até a produção.
Carvalheira encerrou com uma advertência sobre a distância entre planejamento e execução.
“O PowerPoint aceita tudo. Difícil é fazer.”
A mensagem resume o ponto central da palestra: o Brasil reúne recursos minerais, experiência industrial e competências técnicas, mas a transformação dessas vantagens em uma cadeia competitiva de minerais críticos dependerá da capacidade de coordenar políticas públicas, capital, tecnologia, sustentabilidade e relações internacionais com horizonte de longo prazo.
Fonte: Associação de Minerais Críticos (AMC)
-



Direito Minerário 20263 semanas atrásFalta de regra mantém conflitos entre mineração e energia em impasse
-



Políticas e Regulações4 semanas atrásANM propõe quadrículas de 30 m para títulos minerários
-



Direito Minerário 20264 semanas atrásRestrição à compra de terras por estrangeiros desafia mineração






