Tecnologia e Inovação
Kinross recupera US$ 33 milhões em sete meses em Paracatu
Circuito gravítico instalado em Morro do Ouro passou a retirar ouro da carga circulante da moagem antes que partículas recuperáveis se tornassem excessivamente finas; segundo dados apresentados pela companhia, projeto acrescentou entre 19 mil e 22 mil onças e mais de US$ 100 milhões ao fluxo de caixa
Em uma mina que trabalha com cerca de 0,4 grama de ouro por tonelada de minério, uma fração aparentemente pequena do metal perdida durante o beneficiamento pode representar milhares de onças ao fim de um ano. Foi sobre essa diferença que a Kinross concentrou um investimento de aproximadamente US$ 33 milhões na mina Morro do Ouro, em Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais.
Em vez de abrir uma nova frente de lavra ou simplesmente elevar o volume processado, o projeto atacou uma perda dentro da própria usina. Concentradores centrífugos foram instalados no circuito de moagem para retirar antecipadamente partículas de ouro recuperáveis por gravidade.
Segundo resultados apresentados pelo engenheiro especialista em processos Alvimar Sousa no Workshop Opex 2026 e publicados pela Revista Minérios em outubro, o investimento teve retorno em sete meses. A produção adicional atribuída à iniciativa nos resultados de 2024 e 2025 ficou na faixa de 19 mil a 22 mil onças, enquanto o incremento de fluxo de caixa superou US$ 100 milhões. A publicação não discrimina quanto desse volume correspondeu a cada exercício.
Os números de retorno financeiro são provenientes da apresentação técnica relatada pela revista e não aparecem segregados dessa forma nos demonstrativos públicos consolidados da Kinross consultados para esta reportagem. Há, entretanto, evidência corporativa independente da apresentação de que o circuito gravítico contribuiu para melhorar as recuperações da operação. Nos resultados do terceiro trimestre de 2024, a Kinross atribuiu parte do aumento de produção de Paracatu à melhoria de teor e recuperação após a instalação de concentradores Knelson. No primeiro trimestre de 2025, voltou a registrar que infraestrutura adicional do circuito gravítico contribuiu para melhores recuperações.
O problema estava dentro da moagem
A lógica econômica do projeto começa na geologia de Paracatu. A operação trabalha com minério de aproximadamente 0,4 g/t de ouro, teor também registrado na declaração de reservas minerais da Kinross para o fim de 2025. Com concentrações dessa ordem, pequenas variações na recuperação metalúrgica assumem importância econômica porque precisam ser multiplicadas pelas dezenas de milhões de toneladas tratadas pela usina.
O ponto identificado pela equipe de processo estava na carga circulante da moagem — o material que não atingiu as condições necessárias para seguir adiante e retorna ao circuito para nova cominuição. Segundo Sousa, esse fluxo apresenta aproximadamente 5 g/t de ouro, concentração muito superior àquela encontrada na alimentação original da mina.
Isso ocorre porque o ouro não se comporta exatamente como os demais minerais durante a moagem. Por sua alta densidade e características de liberação, partículas de ouro livre podem permanecer circulando por mais tempo no sistema.
A permanência excessiva cria outro problema. À medida que essas partículas continuam sendo submetidas à moagem, podem ser reduzidas a granulometrias muito finas. O ouro que poderia ter sido retirado por gravidade torna-se então mais difícil de recuperar nas etapas seguintes, incluindo a flotação.
O conceito do projeto Gravity foi, portanto, retirar uma parcela desse metal antes do sobremoeamento.
Quando anunciado em agosto de 2023, o projeto previa investimento de aproximadamente US$ 30 milhões e capacidade para acrescentar cerca de 20 mil onças de ouro por ano. O desenho divulgado contemplava quatro concentradores centrífugos para a Planta 2, um para a Planta 1 e um reator de lixiviação intensiva. O custo de cerca de US$ 33 milhões informado em 2026 representa o valor posteriormente apresentado para a implantação, superior à estimativa divulgada no início do projeto.
Densidade transformada em recuperação
A separação gravítica não é uma tecnologia nova na mineração de ouro. Seu princípio está na diferença de densidade entre os minerais.
O ouro possui densidade muito superior à de grande parte dos minerais que compõem a ganga. Nos concentradores centrífugos, forças muito maiores que a gravidade natural intensificam essa diferença de comportamento e permitem produzir um concentrado com maior conteúdo de minerais pesados.
Em Paracatu, a aplicação é relevante justamente porque atua sobre a carga circulante. Parte do ouro é interceptada antes de retornar repetidamente aos equipamentos de moagem. O concentrado segue para tratamento, enquanto o restante do material permanece no fluxo industrial.
O efeito pretendido não é apenas produzir um concentrado gravítico. É modificar o balanço de ouro de toda a planta: reduzir a quantidade de metal sujeita ao sobremoeamento e, consequentemente, diminuir as perdas que podem ocorrer nas etapas posteriores.
Sousa informou que entre 60% e 70% do ouro da operação apresenta características favoráveis à recuperação gravítica. Parte do metal também está associada a sulfetos, particularmente arsenopirita. Segundo o engenheiro, o circuito consegue recuperar também uma parcela desse ouro associado.
A meta técnica apresentada para o projeto era elevar em 3,1% a recuperação global da planta. Esse número deve ser lido como objetivo do empreendimento, e não como comprovação independente de que a recuperação final aumentou exatamente nessa proporção. Os relatórios corporativos consultados confirmam melhora de recuperação associada ao circuito, mas não isolam publicamente um ganho global de 3,1 pontos percentuais exclusivamente decorrente do Gravity.
Essa distinção importa. A recuperação metalúrgica de uma usina também varia com teor, mineralogia, granulometria, taxa de alimentação, estabilidade operacional e outras condições de processo. Um circuito adicional pode contribuir para a melhora sem explicar sozinho todo o desempenho da planta.
O ganho do projeto não explica sozinho o avanço da produção
A escala de Paracatu ajuda a dimensionar o efeito econômico de alguns pontos adicionais de recuperação.
A Kinross informou produção de 601.318 onças equivalentes de ouro na operação em 2025, contra 528.574 onças em 2024, aumento de aproximadamente 13,8%. Nos seis primeiros meses de 2026, a mina produziu outras 318.109 onças equivalentes, acima das 295.903 onças do mesmo período de 2025.
Não é possível, porém, atribuir esse crescimento integralmente ao Gravity. A própria Kinross relaciona o desempenho da mina a uma combinação de fatores, incluindo teor alimentado, recuperação, volume processado e sequência de lavra. Os concentradores gravíticos entram nesse conjunto como uma intervenção específica sobre a eficiência metalúrgica.
Essa cautela é particularmente relevante diante dos números financeiros apresentados para o projeto. Mais de US$ 100 milhões de fluxo de caixa incremental e payback de sete meses são indicadores expressivos, mas a divulgação pública consultada não traz memória de cálculo que permita reconstruir de forma independente premissas como preço do ouro, volume incremental por período, custos operacionais adicionais e tratamento contábil do investimento.
Isso não invalida o resultado apresentado. Apenas define seu nível de verificação: trata-se de desempenho informado por um especialista da companhia e parcialmente corroborado, no aspecto operacional, pelos documentos públicos da Kinross sobre melhora das recuperações.
Mais valor por tonelada
O caso de Paracatu mostra por que recuperação metalúrgica pode assumir peso estratégico crescente em operações maduras.
Uma jazida de baixo teor não deixa grande margem para perdas. Depois de minerar, transportar, britar e moer dezenas de milhões de toneladas, permitir que uma fração economicamente recuperável do ouro termine nos rejeitos significa perder valor depois que boa parte do custo de movimentação e processamento já foi incorrida.
Nesse contexto, eficiência não significa necessariamente aumentar a escala. Também pode significar extrair mais metal da mesma tonelada.
A diferença tem implicações para a economia da mina. Um aumento sustentável de recuperação pode elevar a produção sem exigir crescimento equivalente na quantidade de minério lavrado e processado. Dependendo dos custos do circuito adicional, isso pode melhorar margens e alterar o valor econômico de blocos minerais próximos ao limite entre minério e estéril.
É também nesse ponto que recuperação metalúrgica, recursos minerais e vida útil da operação começam a se encontrar.
No fechamento de 2025, Paracatu possuía 4,839 milhões de onças de ouro em reservas provadas e prováveis, contidas em aproximadamente 399,6 milhões de toneladas a teor médio de 0,4 g/t. Durante o ano, a Kinross informou ter acrescentado aproximadamente 700 mil onças às reservas da mina, antes da exaustão, por meio de otimizações do desenho de lavra e exploração.
A companhia atualmente indica 2034 como horizonte da vida útil da operação. Esse prazo é mais recente do que a referência a 2032 publicada pela Revista Minérios. Em setembro de 2026, o presidente e gerente-geral da Kinross Brasil, Rodrigo Gomides, afirmou ao Diário do Comércio que a empresa estuda maneiras de manter Morro do Ouro em atividade além de 2034. A conversão de recursos em reservas dependerá, entre outros fatores, de condições técnicas, custos e preço do ouro.
O próximo minério pode já ter sido minerado
A companhia também avalia alternativas para ampliar a recuperação a partir de rejeitos, segundo a apresentação de Sousa. É uma extensão lógica do mesmo problema abordado pelo Gravity: identificar ouro que atravessou o processo industrial sem ser recuperado e determinar se existe uma rota tecnicamente eficiente e economicamente justificável para extraí-lo.
Reprocessar rejeitos, entretanto, não transforma automaticamente um passivo em reserva mineral. Teor residual, mineralogia, granulometria, recuperação possível, necessidade de nova moagem, consumo de reagentes, água, energia, capacidade instalada e preço do ouro entram na avaliação. A existência física do metal é apenas uma parte da decisão.
O resultado do circuito gravítico em Paracatu é relevante justamente porque expõe uma lógica que tende a ganhar importância à medida que as minas amadurecem: antes de buscar minério adicional, pode existir valor econômico ainda não capturado dentro do próprio processo.
Em Morro do Ouro, a intervenção ocorreu em um ponto específico — a carga circulante da moagem — no qual o ouro estava se concentrando e, ao permanecer tempo demais no circuito, podia se tornar mais difícil de recuperar.
O investimento de US$ 33 milhões não mudou a geologia da jazida. Mudou a quantidade de valor que a operação consegue retirar dela.
Para uma mina de aproximadamente 0,4 grama de ouro por tonelada, essa diferença é suficiente para transformar alguns pontos de recuperação metalúrgica em milhares de onças, alterar o retorno de um investimento e, no horizonte mais longo, participar da equação que determinará quanto ouro de Paracatu ainda poderá ser economicamente aproveitado.
FONTE: Kinross Gold Corporation
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